Mesmo com esta dor instigante e gostosa que me faz sofrer, jamais deixarei de correr atrás do amor. Seria mais fácil matar-me a privar-me deste privilégio que aos humanos foi concedido. Os anjos nos invejam porque não possuem o prazer de deleitar-se num amor. Admito que sou um louco apaixonado, e não quero ser tolo a ponto de ficar uma vida inteira sofrendo por um amor que talvez jamais encontrará a ternura do desejo correspondido. Se a paixão que possuo hoje não achar o enlace que tanto procuro, para apagar este lume, irei beber de outras fontes. Mas, nem mesmo o deslumbramento da volúpia conseguiria apagar tamanho ardor, apenas ajudar-me-ia por um instante a parar de pensar na mulher que é a causa desta desordem em meu coração.
Confesso que me encontro enclausurado num subterrâneo de memórias, mergulhado num mar de tristezas insípidas e notórias. Entrego ao acaso minha tão desinteressante vida. Que o destino tenha piedade e salve-me desta prolongada dor causada pela mais cruel doença existente intitulada amor. A flecha do cupido atingiu-me com uma triste singularidade tornando-me um solitário apaixonado. Cruel anjo do amor que disparou apenas um tiro em um único coração, o meu coração, ao invés de dois tiros em dois corações para que o mundo conhecesse mais duas pessoas que acorrentadas nas correntes da paixão sentem-se livres a ponto de voarem para onde seus corações desejarem ir.
O único remédio que conheço para o amor é o tempo. O tempo que tão indeterminado maltrata minha alma assolada com a inquietude do desejo não consumado. Decidiu ser cruel não levando consigo, junto com as horas e os dias que se vão, esta remota paixão que me atormenta dia e noite privando-me dos amáveis sonhos que costumava ter e da beleza que o sono pode oferecer.
Torturo-me voluntariamente com minha triste vergonha que me impede de desfrutar das delícias que somente a mulher tem poder de conceder. Minha vergonha em declarar-me faz com que eu sofra ainda mais. Meus pensamentos deixam rastros em meus olhos que não se contentam em não olhá-la.
Sou um covarde. Meu coração se inunda de alegria sempre que a vejo, mas as palavras engasgam-se em minha garganta e o silêncio me domina. Como posso amar uma mulher se não tenho a coragem de declarar meu amor? O medo de ter um amor não correspondido às vezes é maior que minha coragem para amar. Um homem que não declara teu amor por uma mulher infeliz é. Pior que ter um amor não correspondido é não saber se este amor seria correspondido.
No silêncio de minha angústia, vagando em meus pensamentos encontro um medo maior ainda. E se ela, sem saber de minha paixão, necessitada de amor, se deleitar nos braços de outro homem e não nos meus? Torturando-me com minha atitude indigna de um apaixonado eu não suportaria conviver comigo mesmo. Percebo que é melhor sentir a aguda dor de ouvir um amargo não, a perdê-la sem nunca tê-la para qualquer um que a conquiste ao fazer o que não faço.
Descrevi todos os meus sentimentos numa carta e a entreguei sem muita esperança. Depois que ela a leu, com as pernas bambas, o coração palpitando descontroladamente e meu corpo tremendo, em silêncio, peguei em suas pequenas e delicadas mãos e sussurrei em teu ouvido:
"Você consente?"
Com um beijo ela me entregou seu coração e selou minha paixão. Com um beijo nos amamos.
No instante em que nossos lábios se separaram minha amada olhou em meus olhos, e sem que o silêncio fosse rompido, li em teu olhar o profundo desejo de seu coração: Abraça-me, beija-me, ama-me.
Fiz um escarcéu em meus pensamentos por nada. Tola e ignorante é a minha imaginação que por estupidez idealizou o que nunca foi verdade. Ignorância no amor é comum. O medo maltrata. Faço o que é simples e viável parecer confuso e inviável. Sofro por opção, torturo-me por antecipação. Quando percebo o tamanho da idiotice que me prendia por nada, dou risada de mim mesmo.
No amor, um gesto pode romper barreiras.
Lucas Richardson
Lucas Richardson


