sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Covarde por antecipação




Mesmo com esta dor instigante e gostosa que me faz sofrer, jamais deixarei de correr atrás do amor. Seria mais fácil matar-me a privar-me deste privilégio que aos humanos foi concedido. Os anjos nos invejam porque não possuem o prazer de deleitar-se num amor. Admito que sou um louco apaixonado, e não quero ser tolo a ponto de ficar uma vida inteira sofrendo por um amor que talvez jamais encontrará a ternura do desejo correspondido. Se a paixão que possuo hoje não achar o enlace que tanto procuro, para apagar este lume, irei beber de outras fontes. Mas, nem mesmo o deslumbramento da volúpia conseguiria apagar tamanho ardor, apenas ajudar-me-ia por um instante a parar de pensar na mulher que é a causa desta desordem em meu coração.
Confesso que me encontro enclausurado num subterrâneo de memórias, mergulhado num mar de tristezas insípidas e notórias. Entrego ao acaso minha tão desinteressante vida. Que o destino tenha piedade e salve-me desta prolongada dor causada pela mais cruel doença existente intitulada amor. A flecha do cupido atingiu-me com uma triste singularidade tornando-me um solitário apaixonado. Cruel anjo do amor que disparou apenas um tiro em um único coração, o meu coração, ao invés de dois tiros em dois corações para que o mundo conhecesse mais duas pessoas que acorrentadas nas correntes da paixão sentem-se livres a ponto de voarem para onde seus corações desejarem ir.
            O único remédio que conheço para o amor é o tempo. O tempo que tão indeterminado maltrata minha alma assolada com a inquietude do desejo não consumado. Decidiu ser cruel não levando consigo, junto com as horas e os dias que se vão, esta remota paixão que me atormenta dia e noite privando-me dos amáveis sonhos que costumava ter e da beleza que o sono pode oferecer.
Torturo-me voluntariamente com minha triste vergonha que me impede de desfrutar das delícias que somente a mulher tem poder de conceder. Minha vergonha em declarar-me faz com que eu sofra ainda mais. Meus pensamentos deixam rastros em meus olhos que não se contentam em não olhá-la.
Sou um covarde. Meu coração se inunda de alegria sempre que a vejo, mas as palavras engasgam-se em minha garganta e o silêncio me domina. Como posso amar uma mulher se não tenho a coragem de declarar meu amor? O medo de ter um amor não correspondido às vezes é maior que minha coragem para amar. Um homem que não declara teu amor por uma mulher infeliz é. Pior que ter um amor não correspondido é não saber se este amor seria correspondido.
No silêncio de minha angústia, vagando em meus pensamentos encontro um medo maior ainda. E se ela, sem saber de minha paixão, necessitada de amor, se deleitar nos braços de outro homem e não nos meus? Torturando-me com minha atitude indigna de um apaixonado eu não suportaria conviver comigo mesmo. Percebo que é melhor sentir a aguda dor de ouvir um amargo não, a perdê-la sem nunca tê-la para qualquer um que a conquiste ao fazer o que não faço.
Descrevi todos os meus sentimentos numa carta e a entreguei sem muita esperança. Depois que ela a leu, com as pernas bambas, o coração palpitando descontroladamente e meu corpo tremendo, em silêncio, peguei em suas pequenas e delicadas mãos e sussurrei em teu ouvido:
"Você consente?"
Com um beijo ela me entregou seu coração e selou minha paixão. Com um beijo nos amamos.
No instante em que nossos lábios se separaram minha amada olhou em meus olhos, e sem que o silêncio fosse rompido, li em teu olhar o profundo desejo de seu coração: Abraça-me, beija-me, ama-me.
Fiz um escarcéu em meus pensamentos por nada. Tola e ignorante é a minha imaginação que por estupidez idealizou o que nunca foi verdade. Ignorância no amor é comum. O medo maltrata. Faço o que é simples e viável parecer confuso e inviável. Sofro por opção, torturo-me por antecipação. Quando percebo o tamanho da idiotice que me prendia por nada, dou risada de mim mesmo.
No amor, um gesto pode romper barreiras.


                                                                          Lucas Richardson         

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Desejo ou amor?


         
  Quem há de entender os mistérios da paixão que, por arte mágica, todo desejo há de perde-se de súbito?
À surdina de minha angústia, eu não poderia negar o meu desejo por uma modesta jovem que incendiou meu corpo com apenas um olhar. Tão doce e delicada, encontrei nela toda a sensibilidade que faltava em mim.
O seu pudor é armadilha. Meu coração chegou a desfalecer com as curvas tentadoras de teu corpo. O bálsamo de tua pele delicada é melhor que o aroma da flor mais perfumada, basta o teu perfume para embriagar-me. O teu sorriso é um convite a conhecê-la. Tua voz charmosa e sedutora extasiava-me.
Com a cobiça alojada em meu intimo, deparei-me com sensações que de súbito surgiram em minha essência. Já não sabia mais o que eram meus princípios. O desejo havia se tornado o maestro de minhas atitudes. O que me atormente é que nunca consigo distinguir se o que sinto é desejo ou amor.
            Sem respeito algum, a seduzi no frescor do anoitecer com palavras que lhe atingiram o coração e um olhar intenso que a assediava com meu anseio concupiscente. Naquela noite tão doce, meus lábios precipitados encontraram o prazer de teus beijos que se mostraram delicados de início e selvagens posteriormente.  Com a violência de minha paixão, minhas mãos comprimiram tua carne nos lugares secretos de teu corpo enriquecido com uma nobre beleza e divina sensualidade. Inflamado de desejo, me embebedei com tua nudez acolhedora até contentar-me com as carícias que encontraram teu digníssimo êxtase somente no limite de nossos corpos.
            O amor sempre foi uma incógnita em minha pecaminosa existência. Mil mulheres não conseguem preencher o vazio que somente o amor pode ocupar. O destino há de brincar com minha vida e com meus amores. Por mais perfeita que seja esta mulher que me enfeitiçou de modo tão repentino e lascivo, todo esse desejo e veemência que me enlouquecem hão de morrer de repente, porque o que vem fácil não permanece por muito tempo, e ainda que seja uma dama reservada e complexa de se seduzir, se não houver amor, a carne há de contentar-se com os gozos da volúpia e enjoar até mesmo das mulheres mais belas.
Como obra do acaso, todo o ardor que costumava me enlouquecer encontrou o seu tão precoce fim. A volição que antes me tornara cativo de uma tão bela criatura desapareceu com o prazer dos afagos de nossa carne. Que futuro me espera numa vida sem amor? O desejo não se auto-sustenta, apenas cria na carne um desespero em consumir aquilo que cobiça.
            O coração é um enganador. A carne sempre estará insatisfeita com os prazeres que não encontram o enlace afetivo da pessoa interior. Quando a alma não quer, o corpo não corresponde. O desejo faz as coisas comuns parecerem deslumbrantes diante uma vontade que consiste apenas no ato de consumar o que se cobiça.
O tempo foi-se e levou consigo, junto com este encanto de mulher todo o meu anseio por sua bondade concupiscente, mas, ao encontrar-se ela no enlace de outro homem, meus olhos logo se encheram de desejo novamente por tão raro fruto, e agora “intocável”.
O fantasma do desejo voltou a me assombrar. Infectado com o veneno traiçoeiro da paixão que aos poucos, perspicaz introduziu-se em meu coração, almejo possuí-la novamente. O egoísmo é tão grande que apenas desejo o que não posso ter. Aos poucos eu estava perdendo a sensibilidade deixando de ver a mulher como mulher e passando a vê-la como vaidade ao meu orgulho.
O proibido sempre será um grande atrativo aos olhos. O proibido me seduz porque amo quebrar as regras e romper os limites. Mas que proveito hei de encontrar ressuscitando os prazeres do passado?
            Encontro-me exaurido pela dor tão longamente deprimida ao lembrar que me cansei desta mulher abençoada com um corpo divino. Não sei que volúpia é essa que arrebata minha consciência e não me deixa saborear minha tristeza. Venho a reincidir no langor da solidão.
            Chego a pensar que a amo, afinal não consigo desviar meus pensamentos dela. Mas, sabendo eu que apenas estou cego pelo desejo, se for amor, a desejarei até o infeliz dia de minha morte.
                               Confundir desejo com amor é um erro involuntário.


                                                                                              Lucas Richardson 

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O passado não morre



           A vida passa, e o passado não morre.
            Confinado estou dentro de minhas memórias. O excesso de amor me maltrata, sou vítima de meus sentimentos.
            De tanto te amar, já não me conheço mais. De tanto te amar, te fiz ir embora.
            Você roubou meu coração, desnorteou meus sentimentos, e em ti viciou meus pensamentos. Roubou minhas manhãs, as tardes ensolaradas e as noites de lua cheia. Roubou minha inocência. Roubou minha incredulidade no amor.
Meus pensamentos ainda vagueiam teu corpo examinando cada detalhe de tua sensualidade. Fico a relembrar o toque, a suavidade da curva de teus seios, tão belos e desejosos, como os caminhos de teu corpo e o primor de tuas ancas. Continuo a admirar os detalhes, como o movimento sutil e delicado com que você leva teus cabelos para trás de tua orelha e o modo como abaixa a cabeça inclinando-a suavemente para a direita ao olhar para baixo quando está tímida ou com vergonha. Encanto-me com teus cílios avantajados que realçam teu olhar e teu sorriso sincero que me faz esquecer todas as minhas aflições. Você não é comum, não aos meus olhos. A vejo como um único broto de rosa vermelha em um jardim de rosas brancas. Possuo uma paixão minuciosa, os detalhes fazem toda a diferença, afinal são as minudencias que a tornam única.
Admiro e amo teus mistérios e incertezas, teu corpo e delicadeza. Vejo tua face, admirável beleza que faz meus olhos se apaixonarem por tamanha formosura. Você é uma jovem com um encanto que me enlouquece com a maravilha de tua carne vultosa. Teu corpo é bondade para meus olhos e pecado para meu coração. Não há como negar, você é uma dama de volúpia.
O teu olhar é cativante, sincero e de uma profundidade incrível, mas por trás dele vejo uma tristeza e uma fraqueza que se recusam a vir à tona, como uma flor que está prestes a desfalecer, mas permanece intacta sem demonstrar os sinais de tua fraqueza. Ao olhar diretamente em teus olhos, posso ver uma garotinha sozinha, confusa, como se estivesse em busca de algo novo em sua vida. Noto que há uma insatisfação em teu íntimo e um desejo de romper os limites, mas percebo lhe falta coragem. Apesar de parecer uma pessoa indefesa, você se porta como se pudesse segurar o mundo em tuas delicadas costas. Imagino que às vezes se sente abandonada e indefesa, como uma criança que se perdeu em uma cidade desconhecida.
Cobicei teu amor por mim. Busquei desvendar cada pensamento seu, decifrar teu olhar, compreender teu corpo, mas tudo isso não lhe era suficiente. Seu mistério me seduziu, tua personalidade confusa me cativou. Me lembro que no escuro você perde a censura desalojando a safada que existe escondida. Pensar em você consola a solidão de não estar contigo.
            Sinto-me nu, tenho que me vestir com minhas lembranças. Só me resta confessar que não te ter é como se o passado quisesse se fazer presente. Não te ter é a vida querer esquecer os beijos apaixonados em que minhas mãos podiam se alegrar ao sentir teu delicioso corpo, o corpo que podia sentir a arrogância e delicadeza de meus beijos, os beijos que partiram da mesma boca que sussurrou provocantes palavras em teus ouvidos, os ouvidos que se assentam ao lado de lindos olhos, olhos que me viram e me desejaram, o desejo que roubou minha atenção. Meu erro foi confundir desejo com amor.
             O dia em que nossa história for apagada de meus pensamentos, será o dia de minha morte.
            Momentos perfeitos nunca são apagados de nossas memórias.


                                                                                                        Lucas Richardson