Quem há de entender os mistérios da paixão que, por arte mágica, todo desejo há de perde-se de súbito?
À surdina de minha angústia, eu não poderia negar o meu desejo por uma modesta jovem que incendiou meu corpo com apenas um olhar. Tão doce e delicada, encontrei nela toda a sensibilidade que faltava em mim.
O seu pudor é armadilha. Meu coração chegou a desfalecer com as curvas tentadoras de teu corpo. O bálsamo de tua pele delicada é melhor que o aroma da flor mais perfumada, basta o teu perfume para embriagar-me. O teu sorriso é um convite a conhecê-la. Tua voz charmosa e sedutora extasiava-me.
Com a cobiça alojada em meu intimo, deparei-me com sensações que de súbito surgiram em minha essência. Já não sabia mais o que eram meus princípios. O desejo havia se tornado o maestro de minhas atitudes. O que me atormente é que nunca consigo distinguir se o que sinto é desejo ou amor.
Sem respeito algum, a seduzi no frescor do anoitecer com palavras que lhe atingiram o coração e um olhar intenso que a assediava com meu anseio concupiscente. Naquela noite tão doce, meus lábios precipitados encontraram o prazer de teus beijos que se mostraram delicados de início e selvagens posteriormente. Com a violência de minha paixão, minhas mãos comprimiram tua carne nos lugares secretos de teu corpo enriquecido com uma nobre beleza e divina sensualidade. Inflamado de desejo, me embebedei com tua nudez acolhedora até contentar-me com as carícias que encontraram teu digníssimo êxtase somente no limite de nossos corpos.
O amor sempre foi uma incógnita em minha pecaminosa existência. Mil mulheres não conseguem preencher o vazio que somente o amor pode ocupar. O destino há de brincar com minha vida e com meus amores. Por mais perfeita que seja esta mulher que me enfeitiçou de modo tão repentino e lascivo, todo esse desejo e veemência que me enlouquecem hão de morrer de repente, porque o que vem fácil não permanece por muito tempo, e ainda que seja uma dama reservada e complexa de se seduzir, se não houver amor, a carne há de contentar-se com os gozos da volúpia e enjoar até mesmo das mulheres mais belas.
Como obra do acaso, todo o ardor que costumava me enlouquecer encontrou o seu tão precoce fim. A volição que antes me tornara cativo de uma tão bela criatura desapareceu com o prazer dos afagos de nossa carne. Que futuro me espera numa vida sem amor? O desejo não se auto-sustenta, apenas cria na carne um desespero em consumir aquilo que cobiça.
O coração é um enganador. A carne sempre estará insatisfeita com os prazeres que não encontram o enlace afetivo da pessoa interior. Quando a alma não quer, o corpo não corresponde. O desejo faz as coisas comuns parecerem deslumbrantes diante uma vontade que consiste apenas no ato de consumar o que se cobiça.
O tempo foi-se e levou consigo, junto com este encanto de mulher todo o meu anseio por sua bondade concupiscente, mas, ao encontrar-se ela no enlace de outro homem, meus olhos logo se encheram de desejo novamente por tão raro fruto, e agora “intocável”.
O fantasma do desejo voltou a me assombrar. Infectado com o veneno traiçoeiro da paixão que aos poucos, perspicaz introduziu-se em meu coração, almejo possuí-la novamente. O egoísmo é tão grande que apenas desejo o que não posso ter. Aos poucos eu estava perdendo a sensibilidade deixando de ver a mulher como mulher e passando a vê-la como vaidade ao meu orgulho.
O proibido sempre será um grande atrativo aos olhos. O proibido me seduz porque amo quebrar as regras e romper os limites. Mas que proveito hei de encontrar ressuscitando os prazeres do passado?
Encontro-me exaurido pela dor tão longamente deprimida ao lembrar que me cansei desta mulher abençoada com um corpo divino. Não sei que volúpia é essa que arrebata minha consciência e não me deixa saborear minha tristeza. Venho a reincidir no langor da solidão.
Chego a pensar que a amo, afinal não consigo desviar meus pensamentos dela. Mas, sabendo eu que apenas estou cego pelo desejo, se for amor, a desejarei até o infeliz dia de minha morte.
Confundir desejo com amor é um erro involuntário.
Lucas Richardson
Lucas Richardson

Nenhum comentário:
Postar um comentário